13 de Abril
Tenho sede
"Depois, sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede." — João 19.28
"Depois" — isto é, penso eu (embora não me atreva a fixar a ordem exata em que o Senhor Jesus pronunciou os seus grandes clamores na cruz), depois da sua queixa de desamparo; pois se esta foi a quarta ou a quinta das sete últimas palavras do Redentor, não ouso determinar. Mas as palavras em si eram muito importantes e indicavam grandes coisas em relação a Jesus e ao seu povo.
Jesus clamou assim, diz-se, para que se cumprissem as Escrituras; pois tinha sido profetizado a seu respeito que lhe dariam fel por mantimento e, na sua sede, vinagre para beber (Sl 69.21). E os soldados, sem ter consciência do que faziam ao cumprir exatamente esta profecia, deram-lhe uma esponja embebida em vinagre.
Mas, minha alma, era da sede do corpo que o teu Jesus se queixava? Penso que não. Ele tinha declarado antes, na última ceia, que não beberia mais do fruto da vide até o dia em que o bebesse novo no reino do seu Pai. Que sede podia ser, então, a de Jesus senão a sede da sua alma pela realização da redenção para o seu povo e no seu povo? Ele tinha uma sede santa e ardente pela salvação eterna dos seus resgatados, e parecia antecipar com esta expressão a hora em que veria o fruto do trabalho da sua alma e ficaria satisfeito.
Mas não teve Jesus também nesta hora, carregando a maldição e a ira de Deus pelo pecado, sede na alma daquele tipo que sentem no inferno os que suportam os tormentos eternos da condenação, debaixo de uma sede sem fim e sem alívio? A descrição que o Senhor Jesus dá deste estado, na parábola da sede do rico, oferece uma visão viva e alarmante de tal miséria extrema. Ah, se os que hoje juntam a embriaguez à sede levassem isto a sério! Se Deus permitiu que o seu amado Filho, a quem o pecado foi apenas transferido, e não cometido por ele, clamasse sob esta sede, qual podemos supor que será o clamor eterno dos que não só merecem a sua ira pelo pecado, mas merecem ainda mais a sua ira eterna por recusarem a redenção por Jesus, que teve sede na cruz para livrar pecadores de uma sede sem fim, no desespero e na miséria?
Minha alma, teve Jesus sede por ti? Estavam os seus lábios moribundos ressecados, e a sua alma profundamente sedenta, pela tua salvação? E não acenderá esta sede do teu Redentor uma santa sede em ti por ele, pelo seu amor e pela sua grande salvação? Não olharás de novo nesta manhã, pela fé, para a cruz e para o trono, e não apanharás a chama do amor dos seus olhos santos, amorosos, ansiosos e lânguidos, até que todas as tuas forças saiam em desejos ardentes, como aquele de outrora, clamando: "Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus. Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho"?