15 de Abril
Nas tuas mãos entrego o meu espírito
"E, clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou." — Lucas 23.46
Minha alma, pondera bem estas últimas das sete últimas palavras do teu Deus e Salvador, pronunciadas na cruz; pois certamente são muito doces e preciosas e muito importantes, tanto por causa do teu Salvador quanto por tua causa.
Primeiro, observa a maneira como o Senhor Jesus entregou assim a sua alma: não como um homem gasto e esgotado, depois de ficar tantas horas na cruz, enfraquecido pela perda de sangue e por agonias da alma como ninguém jamais suportou; mas com grande voz, provando assim o que antes declarara: "Ninguém ma tira de mim; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la." Precioso Jesus, que doce garantia para o teu povo!
Mas por que clamar com grande voz? Um sussurro — e até um simples pensamento da alma, dirigido a Deus, o Pai — teria bastado, se fosse só isso o pretendido. Por que, então, Jesus clamou com grande voz? Não foi para que todos no céu e todos no inferno ouvissem? Não exultaram os anjos com o clamor? Não ouviram e cantaram em alta voz os espíritos dos justos aperfeiçoados, entre os fiéis que já tinham ido para a glória em nome de Jesus? Não tremeu todo o inferno quando Jesus clamou assim em alta voz, sabendo que as chaves da sepultura, da morte e do inferno tinham sido postas agora na sua mão todo-poderosa? Ah, precioso, precioso Jesus! Estava isto entre os teus propósitos graciosos, para que, ao te retirares como vencedor do campo de batalha ensanguentado, a tua grande voz gritasse vitória?
E não havia outro propósito doce e gracioso neste grande clamor, bendito Jesus? Não querias com isso que pobres pecadores, até os confins da terra, ouvissem pela fé e cressem para a salvação da sua alma? Não clamaste, amado Senhor, com grande voz, inclinando a tua cabeça sagrada como para lançar um último olhar ao discípulo e às Marias ao pé da cruz, vendo-os como representantes de todos os membros do teu corpo místico, para que todos com eles vissem os teus triunfos e se alegrassem em ti, sua Cabeça gloriosa?
Sim, Cordeiro de Deus! Nós te adoramos neste ato glorioso; pois o aceitamos como de fato é: o ato da nossa única Cabeça gloriosa. Nesta entrega solene do teu espírito ao Pai, consideramos que os nossos espíritos também foram entregues contigo e por ti. (Minha alma, anota isto com cuidado na tábua mais íntima do teu coração.) Em tudo isto, bendito Jesus, tu eras, e és, a nossa Cabeça. Tomaste, para todos os efeitos, cada crente teu como parte de ti mesmo e, por este ato, entregaste contigo o todo nas mãos do teu Pai, para ser guardado até a hora em que deixarem o corpo, para então serem unidos a ti para sempre. Ah, precioso Jesus! Ah, preciosa misericórdia do nosso Jesus! Como estão seguros, eternamente seguros e protegidos, todos os teus remidos! Bem podia o teu apóstolo dizer: "Nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si"; pois em Jesus o seu povo vive para sempre, e em Jesus morre em segurança.
De agora em diante, querido Senhor, que eu me saiba já entregue contigo e por ti nas mãos do meu Deus e Pai em Jesus. E, quando chegar a hora de abrir o estojo em que agora habita aquela joia preciosa, a minha alma, para que ela parta, ah, quem me dera então uma fé viva, ativa e ardente para seguir o exemplo e adotar a própria linguagem do meu Deus e Salvador, e clamar: "Senhor Jesus, nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me redimiste, Senhor Deus da verdade!"