24 de Março
Eu neles, e tu em mim
"Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade." — João 17.23
Pensa, minha alma, a que honra transcendente, a que estado de felicidade indizível é gerado o crente verdadeiramente regenerado em Jesus. Quem o poderá declarar? Que coração o poderá conceber por completo? Repara, minha alma, com que graça o teu Redentor o mostrou nestas doces palavras.
Observa o fundamento de tudo naquele mistério glorioso da união entre o Pai e o Filho. Isto está na base de todas as nossas misericórdias e se torna a fonte e o manancial de todas as outras. "Tu em mim", diz Jesus; não só como um na natureza e na essência da divindade, numa identidade de natureza, de propósito, de vontade, de perfeições e de todos os atributos que constituem as propriedades distintivas de Jeová; mas de modo especial como Mediador, Cabeça da igreja e do povo, ao fazer toda a plenitude da divindade habitar corporalmente em Jesus, como o Homem da glória, o Deus-Homem, o Ungido de Deus. Assim o Pai é um com Cristo e habita em Cristo de uma maneira como a divindade nunca habitou, nem pode habitar, em nenhum outro.
E, assim como Jesus é um com o Pai na essência da divindade, e o Pai está nele, habitando nele e estando nele em toda a obra da redenção como Mediador, assim também Jesus é um, na natureza humana, com todos os seus membros místicos. "Eu neles", diz Cristo, "como tu estás em mim." Jesus é a Cabeça do seu corpo, a igreja, e é a plenitude dela; e eles são membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos.
Daí vêm os efeitos benditos que todos os seus remidos recebem dele: "para que sejam perfeitos em unidade". Que pensamento doce e precioso! Em Jesus eles são feitos perfeitos. Dele recebem a perfeição. Sendo um com ele, são considerados e vistos como perfeitos diante de Deus; e por ele serão achados assim por toda a eternidade.
E o que torna especialmente querida esta bela visão da perfeição do crente em Cristo Jesus é que cada membro do corpo místico de Jesus participa igualmente desta perfeição em Jesus. Pois, assim como é pelo mesmo Espírito que habita em todos eles que são vivificados para esta vida espiritual em Cristo Jesus, e todos se tornam membros vivos, unidos a Jesus, a sua única Cabeça gloriosa, assim também tem de haver uma união igualmente próxima e querida com Jesus e uns com os outros. Que consideração deliciosa! Como o apóstolo argumenta noutra ocasião: "o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti"; nem o pé pode dizer: "Porque não sou mão, não sou do corpo." Em Jesus todos são um; e ninguém pode tocar no menor do seu povo, assim como na menina dos seus olhos, sem tocar nele.
É assim, minha alma? És tu um com Jesus, um com a Cabeça gloriosa, um com os membros preciosos? Tens comunhão em tudo o que diz respeito a Cristo: comunhão e parte na sua Pessoa, comunhão na sua justiça, comunhão na sua vida, na sua morte, na sua ressurreição, na sua igreja, no seu povo, nas suas ordenanças, em tudo o que diz respeito a Jesus? Então descansa tranquila: terás uma comunhão eterna, e nada te separará de Jesus — nem no tempo nem por toda a eternidade.
Desce, meu corpo, desce à sepultura com esta confiança perfeita: "Se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita."